
Por Maria Eduarda Tosetto | Grupo Em PG É Assim
Existe um momento muito específico do ano em que parece que todo mundo recebe a mesma notificação: o Halloween acabou, podem descongelar a Mariah Carey! Não importa se ainda estamos em novembro, se a árvore de Natal já apareceu na sala ou se alguém acha cedo demais para ouvir músicas natalinas. A internet já tomou sua decisão: oficialmente, começou a temporada de Natal.
Como acontece com quase tudo que ganha força nas redes sociais, essa virada vem acompanhada de memes, vídeos e uma sensação compartilhada: como assim o ano já está acabando?
A passagem do Halloween para o Natal virou quase um pequeno ritual da cultura digital. Durante outubro, o feed se enche de fantasias, filmes de terror, abóboras e decorações assustadoras. Mas novembro mal começa e a atmosfera muda, as músicas natalinas reaparecem, as lojas montam suas decorações, as árvores iluminadas invadem o TikTok e a Mariah Carey sai, pontualmente, do período de hibernação.
É curioso como a internet transforma uma simples mudança no calendário em um acontecimento coletivo. Mais do que acompanhar as datas comemorativas, parece que criamos temporadas para viver cada uma delas. No fim, nem precisamos trocar de calendário: basta abrir outra aba. E, aparentemente, a próxima já vem com pisca-piscas…
A internet também tem suas estações
Antes, a chegada de uma data comemorativa ou uma época do ano era percebida principalmente pelas mudanças nas ruas, nas vitrines e na programação da televisão. Hoje, também temos uma espécie de calendário digital. A gente percebe que o Halloween está chegando quando aparecem fantasias e filmes de terror no feed. Sabe que o Natal se aproxima quando começam a circular os primeiros vídeos de decoração e alguém resgata All I Want for Christmas Is You.
Para quem cresceu acompanhando a internet, é difícil separar as datas comemorativas das referências, piadas e tendências que surgem em torno delas. Elas não são apenas celebradas, são antecipadas, remixadas e compartilhadas.
Existe uma estética para cada temporada, uma trilha sonora, uma coleção de memes e até comportamentos que parecem quase obrigatórios. Em outubro, entramos no clima de Halloween. Em novembro, começamos a procurar enfeites natalinos. Em dezembro, aparecem as retrospectivas, as listas de melhores momentos e as publicações sobre tudo o que aconteceu durante o ano.
É como se a internet tivesse criado suas próprias estações e nós tivéssemos aprendido a acompanhá-las. Mas talvez a parte mais interessante não seja a velocidade com que elas chegam, e sim o que despertam na gente.
A nostalgia de um ano que ainda não acabou
Quando penso em fim de ano, penso na praia, lembro da família reunida, do churrasco, da comida caseira da minha avó, do sol ardendo minha pele e das partidas de vôlei. Também penso em ler um livro deitada na rede, ouvir música até tarde e jogar Uno com todo mundo.
Percebe que não é uma lembrança feita de um único grande acontecimento? São vários momentos simples, que, quando vêm à cabeça, parecem formar uma paisagem inteira. Talvez seja por isso que o fim do ano tenha esse efeito: de repente, cenas que pareciam comuns ficam guardadas como parte de algo maior.
A nostalgia dessa época é curiosa porque nem sempre tem a ver com um passado distante. Às vezes, sentimos saudade de janeiro, de uma viagem de alguns meses atrás, de uma amizade que mudou ou de uma versão nossa que existia no começo do mesmo ano. A proximidade de um novo ciclo parece nos convidar a olhar para trás, mesmo quando ainda estamos tentando entender tudo o que aconteceu ontem a noite.
A internet intensifica esse movimento e parece que todo mundo participa de uma grande sessão coletiva de nostalgia. Talvez seja por isso que certas músicas ganhem outro significado nessa época, não necessariamente por serem natalinas ou por marcarem um acontecimento específico, mas porque conseguem nos levar de volta a uma memória. Pode ser uma canção que tocava na casa dos nossos pais, um filme das férias escolares ou uma música que parecia estar em todos os lugares quando éramos crianças.
O Natal também mistura presente e passado. Mesmo quando algumas tradições mudam, certas referências permanecem: as mesmas músicas, os mesmos filmes, determinadas comidas e aquela expectativa que parece voltar todos os anos.
Entre a expectativa e a pressão de dezembro
Mas nem todo mundo chega ao fim do ano com a mesma sensação de encantamento… Existe também uma cobrança silenciosa, olhar para os últimos doze meses e encontrar uma lista de conquistas, experiências incríveis, viagens, aprendizados e grandes acontecimentos.
Nas redes sociais, essa pressão pode ganhar força. As retrospectivas começam a aparecer, as pessoas compartilham seus melhores momentos e fica fácil imaginar que todo mundo viveu um ano extraordinário. Enquanto isso, há quem esteja tentando lembrar o que fez em março ou entender como chegou a novembro tão rápido.
É fácil cair na impressão de que o ano precisa terminar com uma grande realização para ter valido a pena. Como se cada mês precisasse render uma história interessante, cada experiência tivesse que virar uma lembrança memorável e cada dezembro exigisse uma versão melhorada de quem fomos em janeiro.
Mas nem todos os anos são feitos de grandes acontecimentos. Alguns são atravessados por mudanças discretas, dias comuns, decisões pequenas e experiências que só fazem sentido quando olhamos para trás.
Gosto de acreditar que há beleza nisso também, que não precisamos transformar cada momento em uma retrospectiva digna de publicação. Algumas coisas podem simplesmente acontecer, sem uma fotografia perfeita, uma legenda emocionante ou uma música de fundo. Inclusive, já conversamos sobre isso por aqui! Se quiser revisitar essa reflexão, é só abrir outra aba e ler o primeiro texto do Abre Outra Aba.
Já pode descongelar a Mariah!
No fim das contas, talvez a gente goste tanto da transição do Halloween para o Natal porque ela representa mais do que a chegada de uma data comemorativa. É uma mudança de atmosfera, uma oportunidade de criar expectativas e de participar de um ritual que se repete todos os anos.
A internet pode até ter transformado o descongelamento da Mariah Carey em meme, mas existe algo genuíno por trás da brincadeira. Gostamos de reconhecer os sinais de que uma época especial está chegando: as músicas que voltam, as decorações que reaparecem e a sensação de que, por alguns dias, todo mundo compartilha o mesmo clima.
Talvez tenhamos encontrado uma maneira própria de lidar com a passagem do tempo, transformando-a em referências, memes, playlists e pequenas tradições digitais. A gente brinca com a velocidade com que o ano passa, faz piada sobre envelhecer e compartilha vídeos nostálgicos. Mas, no fundo, parece existir também uma vontade de aproveitar mais um pouquinho aquilo que está prestes a terminar.
E tudo bem se a árvore de Natal aparecer em novembro, se a playlist natalina começar muito antes da hora ou se você já estiver pensando na retrospectiva de dezembro ou nas promessas de ano novo. Só não precisa esperar o ano acabar para perceber o que ele significou.
Enquanto a Mariah descongela mais uma vez, a vida continua acontecendo. Eu penso nisso quando lembro dos dias na praia, da casa dos meus avós, da família reunida, do livro na rede e das partidas de Uno. São momentos simples, mas que, juntos, dizem muito sobre o que guardo com carinho de um fim de ano. E por mais tentador que seja abrir outra aba, ainda tem muita coisa acontecendo nesta.
Nem tudo cabe na mesma aba
Abre Outra Aba é um espaço para explorar as conexões entre cultura pop, música, internet e os comportamentos de uma geração que cresceu com o mundo inteiro ao alcance de uma tela. Entre tendências, referências culturais e situações do cotidiano, a coluna propõe reflexões sobre aquilo que consumimos, compartilhamos e vivemos, questionando o que existe por trás do que parece apenas mais um assunto da internet. Com um olhar pessoal, crítico e bem-humorado, a ideia é ir além do óbvio, conectar pontos e descobrir novas perspectivas sobre a cultura que nos cerca. Afinal, às vezes tudo o que a gente precisa é abrir outra aba!