A gente ainda vive as coisas ou só pensa em como vai postar?

Na estreia da coluna Abre Outra Aba, uma reflexão sobre redes sociais, exposição e o hábito de transformar experiências em conteúdo.

Existe uma cena que provavelmente já aconteceu com você: alguma coisa legal está acontecendo, você pega o celular, abre a câmera, procura o melhor ângulo, grava alguns segundos, confere se ficou bom e pensa em postar depois. Quando finalmente guarda o aparelho, o momento continua ali. Mas, de alguma forma, você já não está exatamente no mesmo lugar.

Não quero bancar a fiscal da experiência alheia, até porque eu também gosto de registrar as coisas, guardar lembranças e compartilhar aquilo que me faz feliz. Seria um tanto hipócrita escrever sobre a internet como se eu estivesse observando tudo do lado de fora, tomando um café e lendo um jornal impresso, quando, na verdade, estou aqui, com as mesmas abas abertas que todo mundo.

Quando viver também vira conteúdo

A gente vai a um show e já pensa no vídeo que vai colocar nos stories. Escolhe um restaurante e, antes mesmo de experimentar a comida, já percebe a iluminação da mesa. Compra uma roupa, monta um look, tira uma foto. Conhece alguém, vive alguma coisa e, em algum momento, considera o que aquilo significa também como registro. Nem sempre, nem em todos os momentos, mas com frequência suficiente para a pergunta começar a fazer sentido: será que estamos vivendo as coisas ou também estamos pensando em como elas vão parecer quando forem vistas por outras pessoas?

Talvez a questão nem seja fotografar ou gravar demais. É que agora quase tudo pode virar conteúdo, e a gente aprendeu a enxergar potencial de publicação em situações que, antes, talvez simplesmente acontecessem.

Existe uma diferença entre querer guardar uma lembrança e começar a viver um momento já pensando na lembrança que ele vai render. Na primeira situação, a foto acompanha a experiência. Na segunda, existe o risco de a experiência começar a obedecer à foto.

E a internet é muito boa em nos ensinar o que parece interessante. Uma viagem fica mais desejável quando tem aquela paisagem cinematográfica. Um relacionamento parece mais concreto quando aparece no feed. Um show ganha outra dimensão quando rende um vídeo que faz todo mundo comentar que gostaria de estar ali. A vida não precisa ser extraordinária o tempo inteiro, mas, quando passamos muito tempo vendo recortes cuidadosamente escolhidos da vida alheia, até a nossa rotina mais comum pode começar a parecer insuficiente.

É uma competição curiosa, porque ninguém precisa anunciar que está competindo. Basta abrir uma rede social e encontrar alguém vivendo uma experiência que parece mais bonita, mais divertida, mais espontânea, inclusive quando aquela espontaneidade levou quarenta minutos e dezessete tentativas para acontecer…

Nem oito, nem oitenta

Seria fácil demais concluir que a solução é abandonar as redes sociais, parar de fotografar e voltar a uma suposta época em que ninguém se preocupava com a própria imagem. As pessoas sempre registraram momentos, contaram histórias e quiseram ser lembradas. A diferença é que, agora, esses registros podem circular instantaneamente, alcançar centenas de pessoas e receber respostas que influenciam a maneira como interpretamos aquilo que compartilhamos.

E isso não significa que todo mundo que grava um show esteja deixando de aproveitar a música, ou que publicar uma viagem transforme a viagem em algo falso. Às vezes, a gente filma porque quer rever depois. Compartilha porque quer dividir a alegria com alguém que está longe. Fotografa porque sabe que a memória falha e porque algumas coisas merecem ser guardadas. Existe afeto nisso também!

O problema começa quando registrar deixa de ser uma escolha e vira quase uma obrigação silenciosa. Quando parece que uma coisa foi menos especial porque não temos uma foto para provar que aconteceu. Quando a primeira reação diante de uma experiência não é sentir curiosidade, surpresa ou felicidade, mas procurar o celular.

E acredito que essa seja justamente a parte mais interessante dessa conversa. Não precisamos escolher entre viver e compartilhar, como se fossem coisas incompatíveis. Podemos gostar de postar, acompanhar tendências, descobrir músicas pelo TikTok, mandar fotos para os amigos e continuar tendo uma vida que não precisa ser exibida para fazer sentido.

A questão é perceber quando a câmera está ajudando a guardar o momento e quando estamos começando a organizar o momento para a câmera.

Não tenho uma fórmula para isso e também não acho que exista uma resposta definitiva para uma geração que aprendeu a socializar, descobrir referências, construir identidades e até se apaixonar em ambientes digitais. A internet não é um lugar separado da nossa vida, ela faz parte dela, com tudo o que tem de maravilhoso, contraditório e, às vezes, exaustivo.

Talvez a gente não precise parar de compartilhar a vida, talvez só precise se lembrar de que ela continua acontecendo quando ninguém está olhando!

Nem tudo cabe na mesma aba

Abre Outra Aba é um espaço para explorar as conexões entre cultura pop, música, internet e os comportamentos de uma geração que cresceu com o mundo inteiro ao alcance de uma tela. Entre tendências, referências culturais e situações do cotidiano, a coluna propõe reflexões sobre aquilo que consumimos, compartilhamos e vivemos, questionando o que existe por trás do que parece apenas mais um assunto da internet. Com um olhar pessoal, crítico e bem-humorado, a ideia é ir além do óbvio, conectar pontos e descobrir novas perspectivas sobre a cultura que nos cerca. Afinal, às vezes tudo o que a gente precisa é abrir outra aba!

Escrito por Maria Eduarda Tosetto

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