
Qual foi a última vez que você conseguiu assistir um filme inteiro ou um episódio de série sem olhar no celular nenhuma vez? Seja honesto. Eu mesma não me lembro. É pegar o celular em uma cena mais parada; responder uma mensagem aqui; ver um TikTok dali. Aí já se passou vários minutos, a história se desenvolveu e eu não sei o que aconteceu. Um episódio de 40 minutos se estende por 1 hora porque eu preciso ficar voltando pra entender.
E tenho certeza de que não sou a única. Parece que nos acostumamos a fazer várias coisas ao mesmo tempo e que simplesmente sentar no sofá para assistir a alguma coisa já não é suficiente. Precisamos conferir as notificações, responder alguém, acompanhar o que está acontecendo nas redes sociais e, de preferência, fazer tudo isso enquanto tentamos entender a história que está passando na televisão.
O problema é que, muitas vezes, nem percebemos o quanto estamos distraídos. Quando nos damos conta, já perdemos uma cena importante, não entendemos uma conversa entre os personagens ou precisamos voltar alguns minutos para descobrir o que aconteceu. E, mesmo assim, continuamos repetindo o comportamento no episódio seguinte.
Mas será que essa mudança está acontecendo apenas do nosso lado da tela? Um artigo publicado pelo jornal britânico The Guardian, em janeiro de 2025, levantou uma discussão interessante: será que a Netflix está produzindo filmes e séries pensando justamente em quem não consegue mais prestar atenção?
Com o título “‘Not second screen enough’: is Netflix deliberately dumbing down TV so people can watch while scrolling?”, o texto do jornalista Ralph Jones aborda a chamada visualização em segunda tela, quando o espectador acompanha uma produção enquanto mexe no celular ou realiza outras atividades.
O artigo apresenta relatos de profissionais do setor audiovisual sobre a possibilidade de roteiros estarem sendo adaptados para esse tipo de público. A ideia seria deixar as situações mais explícitas, com personagens explicando o que estão fazendo e repetindo informações importantes, para que ninguém fique completamente perdido ao desviar os olhos da televisão por alguns minutos.
Um dos exemplos citados é o filme Pedido Irlandês, da própria Netflix, que apresenta diálogos bastante explicativos. Em vez de deixar que o espectador compreenda determinadas situações pelas cenas, os personagens acabam dizendo em voz alta informações que, em muitos casos, já poderiam ser percebidas pela narrativa.
É importante dizer que o artigo também apresenta o outro lado dessa discussão. Roteiristas entrevistados afirmaram que nunca receberam orientações diretas da Netflix para simplificar suas histórias pensando em quem assiste ao celular. Portanto, não é possível afirmar que essa seja uma regra adotada pela plataforma. Ainda assim, a discussão levanta uma questão importante sobre o tipo de conteúdo que estamos consumindo.
A quinta e última temporada de Stranger Things, uma das séries mais populares da Netflix, recebeu críticas justamente pelo excesso de explicações, diálogos repetitivos e cenas que parecem fazer questão de lembrar ao espectador tudo o que está acontecendo.
É claro que uma coisa não prova a outra. Não dá para dizer que os problemas apontados pelos espectadores na série são resultado de uma estratégia para atender quem assiste mexendo no celular. Mas é curioso perceber como essa discussão sobre a falta de atenção também aparece quando falamos da qualidade das produções.
No fim das contas, parece que entramos em um ciclo um tanto estranho: temos cada vez mais opções de filmes e séries para assistir, mas cada vez menos disposição para dedicar nossa atenção a uma única história. E, enquanto isso, as produções também podem acabar se adaptando a esse comportamento.
Não acho que precisamos transformar assistir a um filme em um compromisso solene, apagar todas as luzes e deixar o celular trancado em outra sala. Mas talvez valha a pena experimentar, de vez em quando, simplesmente dar o play e acompanhar o que está acontecendo, sem precisar conferir o Instagram a cada cinco minutos.
Fica o desafio para a próxima sessão de cinema em casa: assistir a um filme inteiro sem pegar o celular nenhuma vez. Eu vou tentar. E você?