Professora surda da UEPG mostra que representatividade também ensina

A trajetória de Katherine Fischer, professora surda da UEPG, provoca reflexão sobre representatividade, inclusão e aprendizagem na educação.

Coluna Neurocidade | Educação e comportamento

Quando uma criança é questionada sobre o que deseja ser quando crescer, as respostas costumam revelar sonhos e referências construídas ao longo da vida. Médico, professor, astronauta, cientista ou tantas outras profissões aparecem no imaginário infantil. Mas existe uma questão importante nessa construção: como imaginar um futuro em determinada profissão quando nunca se viu alguém com uma trajetória semelhante ocupando aquele espaço?

A pergunta ajuda a compreender a importância da representatividade na educação. Afinal, nem sempre a dificuldade está na capacidade de uma pessoa alcançar determinado objetivo. Em algumas situações, faltam referências que permitam reconhecer aquele caminho como uma possibilidade real.

Uma história recente da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) ajuda a trazer essa discussão para mais perto da realidade dos estudantes.

No Dia dos Professores, a universidade apresentou as trajetórias de 55 novos docentes efetivos, empossados após um intervalo de dez anos sem concurso para a carreira. Entre os profissionais está Katherine Fischer, professora surda que vai atuar no ensino de Libras, a Língua Brasileira de Sinais.

A presença de Katherine no quadro docente representa mais do que a chegada de uma nova profissional à universidade. Também permite refletir sobre quem ocupa os espaços de ensino e sobre como essas experiências podem influenciar a maneira como os estudantes enxergam suas próprias possibilidades.

Quando a referência está na frente da sala

Imagine um estudante surdo entrando em uma sala de aula e encontrando uma professora surda à frente da turma.

Ela não está ali como visitante ou como personagem de uma história contada por outras pessoas. Está ocupando o lugar de professora, exercendo sua profissão e compartilhando conhecimentos a partir de sua formação e trajetória.

Essa experiência pode ajudar a ampliar a percepção do estudante sobre os caminhos que ele próprio pode construir.

A diferença está justamente na possibilidade de enxergar alguém com uma experiência semelhante ocupando um espaço profissional que, muitas vezes, pode parecer distante.

Na educação, as referências não estão apenas nos livros, nos conteúdos apresentados ou nas explicações dos professores. Elas também aparecem nas pessoas que ocupam os espaços, nas histórias que são reconhecidas e nas oportunidades que se tornam visíveis.

O que a psicologia explica sobre representatividade?

A psicologia oferece caminhos para compreender essa relação por meio da aprendizagem social.

Essa perspectiva considera que as pessoas também aprendem observando outras pessoas. Ao acompanhar comportamentos, trajetórias e experiências, podemos construir referências sobre o mundo e sobre aquilo que acreditamos ser possível realizar.

Quando alguém encontra uma pessoa com características ou experiências semelhantes ocupando determinada posição, essa identificação pode contribuir para ampliar suas expectativas e possibilidades de futuro.

Isso não significa que a representatividade tenha o mesmo efeito para todos, nem que a simples presença de uma pessoa em determinado espaço seja suficiente para eliminar dificuldades históricas.

Mas significa que as referências importam.

Uma criança que nunca viu uma pessoa com deficiência exercendo determinada profissão pode ter mais dificuldade para imaginar essa possibilidade. Quando essa referência passa a fazer parte de sua realidade, novos caminhos podem se tornar mais visíveis.

Inclusão também significa ocupar espaços de decisão e conhecimento

É comum que o debate sobre inclusão na educação se concentre no acesso. Discutimos como garantir que estudantes com deficiência consigam entrar nas escolas e universidades, tenham recursos de acessibilidade e recebam condições adequadas para aprender.

Tudo isso é fundamental. Mas a inclusão também precisa ser observada por outro ângulo: quem está ocupando os espaços de ensino?

A presença de profissionais com diferentes trajetórias no ambiente acadêmico contribui para ampliar as experiências representadas dentro das instituições. Isso permite que estudantes encontrem outras referências e que a diversidade também esteja presente na construção e na transmissão do conhecimento.

No caso das pessoas surdas, essa discussão envolve ainda a importância da Libras, da acessibilidade na comunicação e do reconhecimento das diferentes formas de participação na sociedade.

A presença de uma professora surda no ensino de Libras também permite refletir sobre a importância de profissionais surdos ocuparem espaços de formação e compartilhamento de conhecimento.

É importante lembrar, porém, que representatividade não substitui políticas de inclusão. A presença de uma professora surda não elimina automaticamente as barreiras de comunicação, acessibilidade e oportunidades que ainda podem existir dentro das instituições.

A inclusão exige estrutura, respeito, condições de trabalho e acesso efetivo para todos.

O futuro também é construído pelas referências que encontramos

A história de Katherine Fischer, agora entre os novos docentes efetivos da UEPG, ajuda a ampliar uma reflexão que vai além da universidade.

Quantos jovens deixam de considerar determinadas profissões porque nunca conheceram alguém com uma trajetória parecida ocupando aquele lugar?

Ouvir que é possível chegar a algum lugar é importante. Mas enxergar alguém que já percorreu parte desse caminho pode tornar essa possibilidade mais concreta.

É por isso que a representatividade também faz parte do processo educativo. Ela não está necessariamente em uma explicação formal ou em uma atividade planejada. Às vezes, está na própria presença de alguém que demonstra, por sua trajetória, que aquele espaço também pode ser ocupado por pessoas diferentes.

Uma universidade inclusiva não é apenas aquela que abre suas portas. É também aquela que cria condições para que diferentes pessoas possam estudar, ensinar, trabalhar, crescer e ser reconhecidas.

Porque ninguém deveria precisar de permissão para sonhar com um lugar onde tem o direito de estar.

Esta é a Neurocidade.

Depois que você entende, não dá pra desver.

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