
Santiago Peña, presidente do Paraguai, anunciou sua renúncia ao cargo nesta quinta-feira (5), em meio à crise provocada pela intervenção no banco digital Ueno. A instituição deixou milhões de clientes sem acesso às próprias contas, o que desencadeou protestos e uma crise política no país.
A situação também colocou o presidente no centro de um processo de impeachment. Peña foi acionista do grupo empresarial que controla o Ueno Bank até março de 2025 e passou a ser alvo de acusações relacionadas a possíveis conflitos de interesse e à condução da crise financeira.
Em comunicado divulgado nas redes sociais, o então presidente pediu desculpas à população e afirmou que decidiu deixar o cargo para preservar a estabilidade do país. “Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar as nossas instituições democráticas”, declarou.
Peña também destacou que sua prioridade é garantir a tranquilidade dos paraguaios que confiaram suas economias ao sistema financeiro. Ele manifestou o desejo de que os valores depositados sejam devolvidos aos clientes e que o Fundo de Garantia de Depósitos cumpra sua finalidade.
A crise ganhou força depois que o Banco Central do Paraguai determinou a intervenção no Ueno Bank, após identificar problemas nos indicadores de solvência da instituição (capacidade de pagar suas dívidas e cumprir seus compromissos financeiros). Com a medida, milhares de correntistas tiveram suas contas bloqueadas e ficaram sem acesso ao dinheiro depositado no banco.
Processo de impeachment
Na manhã desta quinta-feira (5), a Câmara dos Deputados do Paraguai iniciou a análise de um pedido de impeachment contra Peña e seu vice-presidente, Pedro Alliana. A iniciativa foi apresentada em meio aos questionamentos sobre a relação do então presidente com o banco e a atuação do governo diante da crise.
Mesmo após o anúncio da renúncia, os deputados aprovaram por unanimidade o prosseguimento do processo de impeachment contra Peña, com 78 votos favoráveis. A decisão ainda depende de análise do Senado paraguaio.
Já o pedido de impeachment contra Pedro Alliana foi rejeitado pela Câmara, por 48 votos contrários e 30 favoráveis. Com isso, o vice-presidente fica apto a assumir a Presidência da República, após a formalização da saída de Peña.
Economista e integrante do Partido Colorado, Santiago Peña assumiu a Presidência em agosto de 2023, com mandato previsto até 2028. Com a renúncia, Pedro Alliana deverá assumir o comando do país e concluir o período de governo.
Comunicado de Santiago Peña na íntegra
Em sua manifestação, Peña afirmou que a decisão foi tomada em respeito às instituições democráticas e à estabilidade do Paraguai. Confira a íntegra do comunicado:
Queridos compatriotas, hoje me dirijo a vocês em um dos momentos mais difíceis da minha vida, com o coração voltado para o Paraguai e com a convicção de que a nossa República deve estar sempre acima de qualquer pessoa ou circunstância.
A história se encarregará de julgar e colocar na sua devida dimensão os acontecimentos que hoje nos toca viver. Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar as nossas instituições democráticas. Faço-o com absoluto respeito à nossa Constituição Nacional e aos mecanismos institucionais e democráticos que estabelecemos para nós mesmos como nação. Estou convencido de que nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai.
Também quero pedir desculpas ao povo, caso eu tenha falhado em algum momento; nunca foi minha intenção defraudar a confiança que depositaram em mim. Assumi esta responsabilidade todos os dias com a vontade de trabalhar pelo Paraguai, mas hoje a minha prioridade é uma só: a tranquilidade dos paraguaios que confiaram suas economias ao nosso sistema financeiro. Por trás de cada depósito, há anos de esforço, sacrifício e projetos familiares.
Meu maior desejo é que se garanta a devolução desses recursos, que o Fundo de Garantia de Depósitos cumpra a sua finalidade e que sejam protegidos os fundos públicos e os recursos que pertencem a todos os paraguaios.
Queridos compatriotas, somos um país que atravessou momentos muito difíceis e que sempre soube se reerguer. Confio profundamente na força do nosso povo e na capacidade das nossas instituições para superar esta situação.
Hoje, devemos demonstrar, mais uma vez, que a democracia é respeitada, que as instituições são preservadas e que o Paraguai está acima das nossas diferenças. Nenhum cargo é mais importante do que a estabilidade da República; nenhuma pessoa está acima do Paraguai. Agradeço pela confiança, por cada momento vivido e por terem me dado a honra de servir a esta grande nação. Que Deus abençoe cada família paraguaia e que Deus abençoe o Paraguai.