
Por Dalcion Junior de França | Grupo Em PG É Assim
A gente ensaia por semanas, às vezes meses. Prepara cada detalhe, escolhe o figurino, ajusta os instrumentos e imagina como tudo vai acontecer. Quando chega o dia do show e as coisas saem como planejado, é uma sensação difícil de explicar.
Estar ali, fazendo o que ama, sentindo a energia da plateia, recebendo aplausos e percebendo que as pessoas estão admirando aquilo que você construiu com tanto esforço é surreal.
A música me dá uma sensação quase mágica, como se eu tivesse algum tipo de superpoder. É como uma energia que sai das minhas mãos, passa pelo instrumento e chega diretamente a quem está ouvindo. Sinto que consigo transmitir algo que vai muito além do som.
Mas existe outro lado dessa experiência. Se estar no palco pode ser uma das sensações mais incríveis do mundo, também existe um medo no meio disso tudo; o de errar justamente quando os holofotes estão em cima de você.
Você vai, coloca o pé apoiado no retorno, começa aquele solo que ensaiou tantas vezes e, de repente, se embanana todo e vira aquela vergonheira.
E quando você erra, é horrível. Dá vergonha, frustração, uma sensação de inferioridade. Você percebe que algumas pessoas aplaudem e começa a pensar se estão reconhecendo seu esforço, tentando te apoiar ou até te zoando mesmo, ou, quem sabe, talvez tenha outro músico na plateia que sabe exatamente o que aconteceu porque já passou pela mesma situação e se solidarizou com a situação.
Aquele aplauso que deveria ser motivo de alegria ganha outro significado. Você sabe o que aconteceu, sabe o quanto ensaiou e, principalmente, o quanto queria que tudo tivesse saído diferente.
Essa era a minha hora!
Bom, isso aconteceu durante um show em que chegou a hora de um solo de baixo. Na minha cabeça, era o momento de brilhar, era a minha hora de ser épico!
Cabelos ao vento, pé apoiado no amplificador de retorno e toda a confiança de quem estava prestes a fazer história. Só que meus dedos começaram simplesmente a assassinar os ouvidos das pessoas que estavam na minha frente.
E agora? Como seguir normalmente depois disso? Você mantém a postura, segura aquele sorriso torto, tenta disfarçar como se nada tivesse acontecido e volta para o fundo do palco se sentindo minúsculo. Por dentro só queria desaparecer por alguns minutos.
O pior é que a música continua e você precisa acompanhar como se não tivesse acabado e se sentir num terror musical, digamos. Faz parte. Pelo menos é o que a gente tenta dizer para si mesmo.
E sempre existe aquele músico na plateia. Aquele que percebeu tudo, o mais amigo, que, depois te dá um tapinha nas costas sorrindo e diz “você toca pra car…”
O show acaba e o erro fica
Para o público, aquele momento provavelmente já passou. As pessoas continuam curtindo o show, conversando e até esquecem ou nem percebem o que aconteceu. Mas, para quem errou, a história é outra.
Você chega em casa e começa a repetir mentalmente aquele solo, durante o banho, antes de dormir.
Porque o mais frustrante é justamente isso. Você sabe tocar. Ensaiou, repetiu aquele solo dezenas ou centenas de vezes, tinha tudo na memória muscular. Mas, na hora em que precisava, parece que alguém apagou tudo da sua mente.
E talvez seja isso que torne a experiência tão particular para quem está no palco. O público vê alguns minutos de apresentação, mas não conhece todas as horas de ensaio, as tentativas, os erros e a expectativa que existem por trás daquela música.
No fim, a gente precisa aprender a conviver com isso. Nem sempre vai sair como planejado, nem sempre os dedos vão acompanhar a cabeça e, de vez em quando, algum solo vai virar motivo de arrependimento.
Mas o legal é que mesmo depois de passar por tudo isso, a vontade de subir no palco novamente continua. E, provavelmente, na próxima oportunidade, quando chegar a hora do solo, a gente vai colocar o pé no retorno, jogar os cabelos para trás e pensar exatamente a mesma coisa.
Essa é a minha hora! Isso é o que me faz ser eu!
Entre Acordes
Entre Acordes é um espaço para falar sobre música, suas histórias, influências e transformações. Uma coluna para compartilhar opiniões, lembranças e reflexões sobre aquilo que ouvimos, desde os clássicos que marcaram gerações até as novidades que movimentam a música atualmente. Afinal, cada música tem uma história e sempre existe alguma coisa interessante para descobrir entre seus acordes.