
Por Dalcion Junior de França | Grupo Em PG É Assim
Sabe aquela música que começa a tocar e, antes mesmo de o cantor começar, você já sabe exatamente qual é? Às vezes, bastam alguns acordes de guitarra para reconhecer uma canção e até lembrar de onde você estava quando a ouviu pela primeira vez.
Me lembro que isso acontecia com muito mais frequência no sertanejo de antigamente. E não estou falando apenas das letras românticas ou das duplas que fizeram sucesso nos anos 1990 e 2000. Estou falando também daqueles arranjos, das introduções e, principalmente, dos solos de guitarra que pareciam fazer parte da história que a música queria contar.
Um exemplo que sempre me vem à cabeça é É o Amor, de Zezé Di Camargo & Luciano. Basta ouvir o começo para reconhecer a música. Outro exemplo é Declaração de Amor, do Daniel, que tem um solo de guitarra no meio da canção.Também posso falar de Alô de Chitãozinho e Xororó, que tem aquele solo de guitarra que marca a subida do tom do último refrão da música, deixando muito mais emocionante. São momentos que fazem a gente prestar atenção não apenas no que está sendo cantado, mas também no que os instrumentos estão fazendo.
E aí fica a pergunta: cadê esses solos nas músicas sertanejas de hoje?
Quando a guitarra também fazia parte
Uma coisa que sempre gostei nas músicas sertanejas mais antigas é que os instrumentos tinham espaço. A guitarra não estava ali apenas para acompanhar a voz do cantor. Em muitos momentos, ela parecia conversar com a música.
Pense em uma canção romântica. O cantor termina uma parte da letra, começa o solo e, de repente, parece que a música continua contando aquela mesma história, só que sem precisar de palavras.
Isso é fantástico!
Em Declaração de Amor, por exemplo, existe esse momento em que a guitarra aparece e dá uma outra dinâmica à música. Em É o Amor, a introdução já ajuda a criar aquela identidade que faz a canção ser reconhecida até hoje, em algumas músicas a guitarra marca o momento em que o refrão vai subir o tom. Até quem não entendia muito de guitarra ficava marcado com a presença dela. Lembro até de mim mesmo, criança, fazendo guitarra de vento quando começava alguma.
Talvez seja isso que esteja fazendo falta em parte do sertanejo atual. Não necessariamente a música precisa ter um solo enorme ou uma guitarra aparecendo o tempo inteiro, mas sinto falta de ouvir esses momentos em que o instrumental também tem importância.
O sertanejo mudou, né?
É claro que o sertanejo não ficou parado no tempo. Ao longo dos anos, o gênero ganhou novas influências, novos artistas e outras maneiras de produzir música.
O sertanejo universitário, por exemplo, trouxe uma sonoridade diferente, aproximando o gênero do pop e de outros estilos. Depois vieram ainda mais misturas, com elementos da música eletrônica, batidas mais fortes e produções cada vez mais voltadas para grandes shows e plataformas digitais.
E não vejo problema nisso. A música precisa evoluir, experimentar e encontrar novos caminhos. Seria estranho imaginar que ainda estaríamos ouvindo exatamente as mesmas coisas de décadas atrás.
Mas, em alguns momentos, tenho a sensação de que essa evolução acabou deixando algumas características importantes pelo caminho.
Hoje, encontramos músicas que parecem dar muito mais importância à batida e ao refrão do que ao restante da composição. A música começa, a voz entra rapidamente, chega aquele refrão feito para todo mundo cantar e, quando percebemos, ela já terminou.
Não é uma questão de querer que toda música tenha um solo de guitarra de trinta segundos. É mais sobre sentir que existe um cuidado com a melodia, com os instrumentos e com a construção da música como um todo.
Muito carro, bebida e festa. Cadê a poesia?
Outra coisa que me chama a atenção é o conteúdo de algumas músicas que hoje recebem o nome de sertanejo.
Não tenho nada contra uma música que fale de festa, bebida, carro, dinheiro ou aquela saída com os amigos. Afinal, nem toda música precisa falar de amor ou fazer alguém refletir sobre a vida. Também gosto de uma música animada, que toca em uma festa e faz todo mundo cantar.
Mas, quando olho para parte das produções atuais, parece que estamos ouvindo muitas vezes a mesma história, com palavras diferentes.
É carro, bebida, festa, relacionamento passageiro, gostar de relação tóxica e aquele refrão que precisa grudar na cabeça logo na primeira vez. Funciona? Funciona! Tem público, faz sucesso e lota shows. Não dá para negar, fazer o que?
O sertanejo sempre teve essa capacidade de falar de situações comuns da vida de um jeito que muita gente conseguia se identificar. Falava de amor, de saudade, de traição, de encontros e despedidas. Eram histórias que poderiam acontecer com qualquer pessoa, mas que, quando viravam música, pareciam ter sido escritas especialmente para quem estava ouvindo.
Sim, ainda existem artistas fazendo músicas bonitas e composições que têm muito conteúdo. Mas acredito que algumas produções acabam apostando tanto em fórmulas que deixam a impressão de que a música foi feita apenas para funcionar naquele momento.
Às vezes, parece que o importante é ter uma batida forte, uma frase de efeito e um trecho que possa viralizar nas redes sociais. E tudo bem querer fazer sucesso, mas será que precisamos deixar a criatividade e a poesia em segundo plano para conseguir isso?
Entre Acordes
Entre Acordes é um espaço para falar sobre música, suas histórias, influências e transformações. Uma coluna para compartilhar opiniões, lembranças e reflexões sobre aquilo que ouvimos, desde os clássicos que marcaram gerações até as novidades que movimentam a música atualmente. Afinal, cada música tem uma história e sempre existe alguma coisa interessante para descobrir entre seus acordes.